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Uma capa em 15 minutos. 81

Eu estava pedindo meu almoço na praça de alimentação do Projac quando, ao olhar para trás, reparei que a Adriana segurava um rádio e sorria estranhamente para mim:

“Que bom te encontrar Renato, preciso de uma foto para a capa do CD de Viver a Vida até amanhã às 14 horas…”

Adeus, almoço!  Perguntei como o Jayme queria a foto e com um clique no rádio eu ouvi a resposta dele:

Solar!”

Enquanto caminhava em direção ao estúdio A, o SB-800 arfava no meu peito, mas dessa vez iria precisar de uma ajuda do arsenal luminoso dentro dos estúdios de gravação.

Para a minha tranquilidade o cenário montado simulava uma pousada em Búzios. A associação foi imediata: pousada, Búzios, praias, sol…”SOLAR”! Tinha encontrado o ambiente certo para as fotos!

Enquanto procurava o fundo ideal, acertava com o iluminador do estúdio todos os detalhes da foto. Tudo estranhamente se encaixava: A Taís Araújo chegaria no dia seguinte às 11 h, tinha uma hora para maquiagem, cabelo,  figurino e de meio dia a uma da tarde eu clicaria a capa, liberando o estúdio para as gravações. Perfeito!

Mas para sobreviver no mundo da TV, você deve esperar pelo inesperado!

Quando entrei no estúdio na manhã seguinte, em vez de uma solar pousada em Búzios, encontro um frio hotel no Rio, tão gelado quanto a minha cara de espanto. Uma alteração de última hora havia mudado o roteiro de gravação e me colocado em maus lençóis…Procurei pela Taís e ela já estava praticamente pronta e eu ainda sem lugar para fotografar. Pensei em fazer a foto no nosso estúdio fotográfico, mas outro fotógrafo estava lá, corri para fora do prédio e dei de cara com o SB deitado embaixo de uma árvore, se protegendo do sol escaldante do verão carioca. Ele sorria descaradamente para mim, quase dizendo “eu te avisei, né?”

A árvore onde ele estava proporcionava uma grande área de sombra, bloqueando a luz dura do Sol do meio-dia e garantindo uma iluminação indireta e suave vinda de todos os lados e ainda poupava alguns litros de suor da Taís.

Embora confortável, aquele ambiente era uma sinuca de bico fotográfica: fotometre na sombra e ganhe um fundo estourado, fotometre o fundo e veja uma silhueta de Taís na capa de um CD…

Procure por uma exposição intermediária e o resultado pode ser conferido abaixo:

Taís Araújo

D200, ISO 100, f/5.6 e 1/80 s, o mundo é visto por uma 70-200 f/2.8

É a luz que excita sua vista, a leve explosão luminosa atrás da atriz ganha a guerra pela atenção dos seus olhos, mas você quer exatamente o oposto. A Taís está lá, mas perde para um arbusto em chamas.

Há 2 soluções aqui: diminuir a intensidade luminosa do fundo ou despejar mais luz na área de sombra. “Mais luz” foi a senha para o SB pular para um tripé Manfrotto.

D200, ISO 100, f/5.6 e 1/80 s, ainda com a 70-200

Câmera, lente, distância focal, abertura, obturador e a pose e enquadramento são os mesmos nas duas imagens e ainda assim, elas são completamente diferentes. É a luz fazendo seu trabalho (e como amo esse trabalho…rsrsr).

A segunda imagem mostra o volume do corpo e cabelo, a textura da pele e do vestido, destaca a atriz do fundo e ainda confere um brilho nos olhos dela. Coitado do arbusto em chamas…

Durante o workshop de flash eu comentei que havia feito essa foto com 2 SBs, mas o hábito me levou a um erro: a luz principal é um flash Atek a bateria, um Shine 500, montado em uma sombrinha branca difusora. Ele foi posicionado logo a minha direita, bem no eixo do rosto da Taís. Nosso fotógrafo paulista Zé Paulo Cardeal está agachado abaixo do quadro segurando um rebatedor prata para diminuir as sombras no pescoço.

O SB-800 (Com um gel 1/2 CTO) está lá atrás, funcionando como uma contraluz e sendo disparado pelo Atek. Esse é outro trunfo dos SB’s: no modo SU-4, eles podem ser disparados por qualquer outro flash, desde a mais simples Cybershot da vida até o mais poderoso flash de estúdio. Qualquer flash, de qualquer marca. Os cães não te abandonam!

Nikon SU-4

o SU-4 da Nikon é, na verdade, um disparador remoto (vendido separadamente) que pode ser usado em alguns flashes e câmeras antigas da marca, mas tanto o SB-800 como o 900 têm um módulo desses embutido.

PARA PROGRAMAR O MODO SU-4 NO SB-800:

página de configuração do SB-800

1-Com o flash no modo normal de operação, mantenha apertado o botão central “SEL” por aprox. 3 seg. O SB entra na página de configuração, na esquerda do painel há 2 colunas com ícones de função, procure pelo ícone que mostra um “raio” entrando e saindo de um flash.

2-Com o ícone selecionado, pressione “SEL” por 1 seg. Use os botões “+” e “-” para navegar entre as opções a sua direita: OFF, MASTER, MASTER RPT, REMOTE E SU-4. Escolha o SU-4 e aperte novamente o “SEL” por mais 3 seg para ativar a escolha.

3-Nesse modo, use o botão “MODE” para alternar entre o modo AUTO e o MANUAL.

No modo AUTO, o flash calcula a potência correta baseado no disparo da unidade master. Funciona bem na maioria dos casos, mas eu prefiro deixar as coisas sob o meu controle, escolhendo sempre o modo MANUAL. Através das teclas “+’e “-” consegue-se mudar a potência do SB, o correto é usar um fotômetro para calcular a carga correta, mas no caso da foto acima, a pressa me fez confiar nos meus olhos e no LCD da câmera tanto para ajustar a potência do SB quanto a do Atek.

Uma dica: o que eu fiz foi uma estupidez. Use o fotômetro sempre e se afaste de quem diz que as digitais tornaram o uso desse equipamento dispensável. Confie nele, em um ambiente ensolarado como aquele é fácil ser confundido pelo LCD da câmera. Um fotômetro simples e barato é melhor que nenhum fotômetro. Compre um e mantenha-o sempre consigo.

PARA PROGRAMAR O MODO SU-4 NO SB-900:

SB-900 EM SU-4

1- Pressione o botão “OK” por 2 segundos, a página de configuração aparece.

2- Gire o “dial” até o quarto ícone, SU-4.

3- Aperte “ok” e selecione “ON” para ativar a função. Confirme com o botão “ok” novamente.

4-Aperte em “EXIT” na esquerda do painel.

Note que o flash volta a operação normal, mas ao mexer a alavanca a direita para o modo “REMOTE”, é o modo SU-4 que aparece.

Pronto, as portas da versatilidade foram abertas!

Depois de todos os ajustes necessários, cliquei o máximo que pude, gravei um DVD com as fotos em RAW e entreguei para o motoboy que já me esperava na portaria.

Depois de um tratamento básico no Photoshop (não feito por mim) e uma fusão de imagens no fundo, a capa ficou pronta:

Capa do CD Viver a Vida

Agora no trabalho temos a chance de filmar eventos interessantes graças à aquisição de um Nokia N85, um celular capaz de fazer vídeos em VGA com uma qualidade mais do que aceitável. Se você achava o trabalho fotográfico complicado depois do advento das digitais, imagine agora com a possibilidade de gravar e fotografar com o mesmo equipamento e com mídias que aceitam essa revolução. É melhor se preparar, pois nosso ofício acaba de entrar em uma nova fase: tudo ao mesmo tempo agora!!

Um pequeno vídeo da sessão fotográfica pode ser visto abaixo:

ou em caso de pane geral, clique aqui para ver o video na página da Rede Globo.

Eu estava com saudades disso aqui, desculpem pelo sumiço! A vida voltou ao normal!

Ponto para os cães! Sempre!

Boa sorte em 2010. Verdade e Coragem para todos!

abraços

Jogando um cão na parede! 12

Uma boa dica para ampliar as possibilidades de divulgação durante uma viagem, é tentar produzir fotos “neutras”, que não façam referência ao local onde a novela está sendo gravada. Fotos com Paris ao fundo acabam sendo usadas em reportagens sobre as gravações em Paris.É um tanto estranho, mas aos poucos você se acostuma com o fato de ter que produzir boas fotos com prazo de validade bem curto. As imagens também envelhecem…

Uma das gravações acontecia nas margens do Sena, na ponte onde o músico do último vídeo toca o seu saxofone.

José Mayer e TaísPara alcançá-la era necessário passar por uma passagem subterrânea baixa e estreita, toda feita de blocos bem claros de concreto. Eu não sabia, mas eles seriam os rebatedores mais pesados que já utilizei.

Eu fotografava o ensaio de dentro da passagem, em cima de uma caixa de madeira, com uma teleobjetiva fechada nos atores. Virei-me para trocar a lente e me deparei com a imagem abaixo:

escada

Da forma como estava iluminada, a escada que dava acesso à passagem formava um padrão de listras muito interessante. Olhei para o figurino do José Mayer e pensei: “Hummm, que tal juntar tudo isso?”

Problema: o interior daquele pequeno túnel era completamente escuro…

Solução: ouvir os latidos dos cães…rsrsrs

Os atores teriam que passar por onde eu estava, então, pedi que nossa assessora Roberta segurasse um SB-800 para mim, já programado no modo REMOTE.

Como a foto teria que ser rápida, não poderia usar tripé nem a sombrinha, mas não queria uma luz dura iluminando o rosto de ninguém.

Enquanto o José Mayer caminhava de volta em direção à escada, ajustei o flash embutido da D200 para commander mode, programei o SB para funcionar em TTL mesmo, com um aumento de potência de +1 ponto.

-“Zé, posso fazer um retrato seu aqui mesmo? Coisa rápida!”

-“Claro!”

Eu não tinha total certeza de que aqulo iria funcionar, mas não custava tentar. Pedi que a Roberta girasse a cabeça do flash na diração da quina entre o teto e a parede da passagem e disparei, rezando para que ninguém descesse a escada naquele momento e que o aumento da carga fosse suficiente para compensar a perda de luz rebatida.

Uma olhada no monitor da câmera mostrou que Alguém Lá em Cima me atendeu:

José Mayer

Ponto para os cães!

Fico por aqui, boa sorte!!

Uma luz apenas? 15

Estou de Volta ao Rio, melhor dizendo, ao Brasil.

Estava curtindo merecidas folgas quando, uma dia antes de voltar ao trabalho, o telefone tocou: “Renato, você conhece o Maranhão?”

Olhei os “cães”, estavam deitados e assim ficaram, mas balançaram a cauda…rsrs…

Não consegui nem esquentar minha cama direito, só deu tempo de levar o equipamento para uma manutenção preventiva, pegar as diárias e a outra câmera e embarcar em um vôo de 8 horas entre o Rio de Janeiro e São Luis (mais uma hora e voltava para a França, país grande ou confusão aérea?), para fazer as fotos da nova novela das 18h, Pelo Avesso, dirigida por Ricardo Waddington.

Bom, aqui estou eu em Barreirinhas, portão de entrada para os Lençóis Maranhenses. Ainda tenho um vídeo com fotos de Paris para colocar aqui, mas enquanto não termino de editá-lo, aproveito para fazer novas filmagens e fotos e agradecer pelos comentários e incentivos ao blog. Graças a vocês ele está crescendo em um ritmo difícil de acreditar e atraindo coisas boas, acho que posso me adiantar e dizer que ótimas surpresas nos aguardam para o segundo semestre. Coisa boa mesmo, mas segurem a ansiedade!

Recebi vários emails comentando sobre as possibilidades que se abrem quando um flash fora da câmera é adicionado à foto, mas ficou a sensação que o melhor da festa podia estar ficando de fora.

Uma das maiores vantagens de usar o sistema CLS (Creative Lighting Sistem) da Nikon não está no equipamento em si, mas fora dele: de tão fácil e prático de usar (um tutorial mostrando como programar os flashes no modo REMOTE está aqui) permite que o fotógrafo se concentre mais na iluminação do que nos flashes. Isso tem um impacto tremendo na forma de se encarar um foto.

Quando decidi colocar 2 SBs na mochila, pretendia usar 4 luzes: a do Sol, a dos flashes dedicados e do flashinho embutido. Um jogo potente, versátil e fácil de se carregar em uma bolsa média.

20 anos de Colégio Santo Agostinho e 8 de Engenharia na PUC fazem um certo estrago, me levando a olhar para uma foto como quem resolve um problema de Cinemática em Física, separando para conquistar, veja esses exemplos:

Taís Araújo

Como não é possível ajustar a posição do Sol, ele é quem determina o posicionamento da atriz. Na foto ao lado, a Fornalha jordaniana ilumina a Taís Araújo em um angulo de 45 graus, dando volume e deixando quase metade do corpo da atriz na sombra (eu exagerei um pouco no PS para evidenciar a sombra). Caso não houvesse nenhuma outra fonte de luz disponível, essa já seria uma foto boa para divulgação. As sombras atrapalham um pouco a impressão dessa imagem em papel jornal, mas com um SB louco para sair da mochila, você consegue muito mais.

Taís Araújo e SB900

Parte do trabalho que o flash vai fazer poderia ser feito com um rebatedor, mas o flash oferece a vantagem de permitir que o fotógrafo estabeleça relações entre as luzes da foto. Seria impossível subexpor o fundo com um rebatedor, com o flash, era só aumentar a velocidade do obturador da câmera. Nessa segunda foto, o flash foi colocado atrás da atriz, essa posição traz 2 vantagens básicas:

-Aprimora a sensação de volume por conta do reflexo da fonte luminosa na pele e no tecido da roupa. Esse brilho que surge na foto nada mais é do que a imagem do flash disparando, mas ajuda muito na reprodução da textura da calça, camisa e pele (perfeita por sinal, não há PS ali) da atriz. Tudo que seu cérebro precisa para entender que um corpo e não um painel da atriz está sendo fotografado está presente na foto: um brilho especular, sombras e o tom correto da pele.

Anne, a fiscal de figuração local, ao ver a foto exclamou: “Uau! ela está brilhando no deserto!” Era essa sensação que eu buscava…

-Obriga a sombra resultante a ficar exatamente no eixo da câmera, local onde se encontra o flash embutido. Caso eu quisesse (nesse caso não foi preciso) controlar a intensidade dessa sombra, era só programar o flashinho.

Lembre-se de que, por causa do vento, eu não usava tipés no momento da foto, a Val segurava o SB-900 para mim. Ter 2 pessoas disponíveis como “flash holders” nesses casos pode ser entendido como um milagre divino ou um abuso do fotógrafo. As chances estavam mais para a segunda opção.

Todos os aspectos são controlados pelo fotógrafo de forma rápida, segura e inteligente, sem a necessidade de acessórios extras ou rebatedores voando para lá e para cá e aproveitando ao máximo o pouco tempo disponível.

Controle, versatilidade e liberdade. Ponto para os cães. De novo!

Fico por aqui. Boa sorte!

Um flash, duas luzes. 11

Tinha chegado cedo ao Projac para resolver uns assuntos na internet (me mudei há pouco e estava sem conexão em casa). Toca o telefone do departamento, a ligação era para mim.

-“Oi Renato, aqui é da Arte da novela Caras e Bocas, precisamos de uma ajuda sua…temos que fazer uma foto da atriz que vai representar a personagem da Flávia Alessandra adolescente. Eu tenho uma foto de referência aqui. Você pode nos ajudar?”

-“Tô descendo, me encontra na porta do estúdio…”.

Adeus internet, adeus tempo livre.

A foto de referência era essa:

Flavia Alessandra

Uma reengenharia no processo revela o modo como a foto foi feita: sol como contraluz e um rebatedor no lado esquerdo.

Básico, tranquila de se fazer…

Encontrei a produtora de arte e a atriz, o único que resolveu não aparecer foi o Sol. A produtora sacou: “Tinha que ficar igual à foto, é para um quadro. Sem sol dá para resolver, agora?”

O SB-800 olhou para mim e sorriu. “Dá”.

Pedi um isopor no estúdio enquanto calculava a potência correta do SB, com o flash a 2 metros de distância das costas da atriz, ASA 100, f/4, o valor foi de 1/32 da carga total. Eu aumentei para 1/16 para ganhar um pouco mais da luz que rebatia no isopor.

Posicionei a atriz Thalita Ribeiro na frente de um fundo neutro, nosso estagiário Thiago segurava o flash lá atrás, na distância correta, e a produtora segurava o isopor bem próximo do rosto. O flash estava em “REMOTE”, com o zoom fechado em 105mm, para concentrar o facho de luz bem nos cabelos.

Com a D200 em commander mode, cliquei:

Thalita Ribeiro

Voilá…um sol portátil que não queima o bolso do colete!

Boa sorte!

Flash: um pouco de luz no assunto… 20

ANA PAULA AMSTERDAM abre

Eu sei… O trocadilho do título é infame, mas quem já tentou ler as instruções de qualquer modelo atual deve ter se sentido perdido lá pela página 3. Como a tecnologia presente nesses equipamentos é revolucionária e a linguagem utilizada nos seus manuais mostra como um escritor pode ser sádico, os usuários comuns ficam com a falsa sensação de que basta programá-los para funcionar no modo TTL que todas as suas dúvidas serão sanadas e assim, acabam perdendo uma excelente oportunidade de aprender um pouco mais sobre luz e de como expandir os limites da sua criatividade.

Aquele que deseja se profissionalizar ou aprimorar sua prática fotográfica deve perder o medo e aprender a usar corretamente o flash para se destacar em um mercado repleto de desinformação e dogmas ultrapassados.

Nesse texto eu tentarei explicar alguns conceitos básicos que vão ajudar você a usar com tranqüilidade esse acessório poderoso e injustamente criticado, mas antes de avançarmos eu devo avisá-lo que usarei como exemplos câmeras digitais e flashes da Nikon, isso não deve ser entendido como um atestado de supremacia de uma marca, os conceitos e operações aqui descritos valem para qualquer equipamento atual, mas se você ainda insiste em achar que um determinado fabricante é capaz de produzir imagens “melhores” que as de outro, talvez seja uma boa hora de rever seus conceitos. Uma máquina fotográfica é apenas uma ferramenta, sozinha ela não passa de um caríssimo enfeite de estante. Seu cérebro é que faz toda a diferença. Use-o!

Por que usar o flash?

Uma das maiores dificuldades para qualquer fotógrafo é compreender como a cena que ele está vendo será registrada em um filme ou sensor digital. Seus olhos são infinitamente mais sensíveis que qualquer fotômetro, eles conseguem perceber diferenças de contrastes de até 13 pontos (alguns autores falam em até 20) enquanto sua câmera só registra variações de no máximo 5. Voltando aos conceitos básicos de exposição, lembre-se de que abrindo um ponto (stop) no diafragma, o dobro da quantidade de luz atinge o sensor de sua câmera, portanto seus olhos têm uma vantagem de 28 em relação a seu fotômetro. É uma diferença abissal, mas não se incomode se você matou a aula de exponenciação no colégio, o detalhe a considerar é que você “vê” duzentas vezes mais alterações de contraste que sua câmera.

Para ilustrar esse conceito, observe a foto abaixo:

fogos em taperoá

É a típica cena de por-do-sol com um motivo interessante acontecendo no primeiro plano. Eu conseguia enxergar todos os detalhes da cena: o céu, os jovens com os fogos de artifício e até a textura da cruz. Eu medi a luz no céu (f/7.1, 1/180s) e logo depois a área de sombra (f/7.1, 1 s).

A diferença entre a alta e baixa luz é bem maior que os 5 pontos de contraste que o sensor pode captar. Ao ajustar a exposição para a alta luz, forcei a câmera a escurecer o primeiro plano, dando à foto a dramaticidade que eu procurava.

Se eu tivesse escolhido a menor velocidade de obturador na sombra, teria mostrado os detalhes do primeiro plano, mas perderia toda a beleza do céu com uma superexposição desagradável.

Observe o resultado na foto abaixo, onde exagerei no photoshop os efeitos da exposição na sombra.

fogos em taperoáLUZ

Para fazer com que a câmera registrasse a imagem que meus olhos estavam vendo, eu devo diminuir o contraste da cena. Como? Adicionando mais luz nas áreas de sombra, alterando assim a exposição das baixas luzes.

Essa é exatamente a função básica do flash: diminuir o contraste de uma imagem.

Quando usar o flash?

A resposta é simples: quando você quiser. No nascer do sol, ao meio dia, em locais abertos ou fechados, no por-do-sol, à noite, com altas ou baixas sensibilidades de filme, etc. Seu flash é apenas uma fonte de luz auxiliar. Não existe um livro de estética ou regras sagradas para o uso desse acessório, em algumas situações você deve usá-lo para obter a melhor imagem possível, em outras, você está no comando, seu gosto pessoal ou alguma decisão específica de um cliente é que vão determinar se vale à pena diminuir o contraste da cena. Na imagem que utilizei como exemplo, não era a minha intenção mostrar detalhes na sombra, logo, mantive o flash na mochila.

É lógico que o bom senso (e seu irmão mais velho, o bom gosto) deve sempre acompanhar o fotógrafo. Muitas vezes eu tenho que abdicar do meu gosto pessoal para atender as exigências de um trabalho. Seus clientes não se importam com suas pretensões artísticas, se você é contratado para fotografar um produto, uma modelo ou um evento, o assunto principal deve estar destacado e iluminá-lo corretamente é a melhor forma de garantir isso. Aprenda a separar o que você gosta do que os que seus clientes gostam.

Como o flash funciona?

Antes de tudo, ele é um equipamento limitado, não é um Sol portátil alimentado por 4 pilhas AA. Eu acho estranho ver torcedores de futebol, sentados na última fileira da arquibancada, disparando os flashes de suas máquinas quando os jogadores comemoram um gol no gramado. Se a luz gerada pudesse iluminar corretamente 200 metros à frente, seus companheiros de torcida logo abaixo seriam vaporizados no momento do clique.

O funcionamento de um flash obedece a uma fórmula matemática simples:

No guia= abertura x distância

Bom, não há muito que explicar o que significa “distância” na fórmula: é a quantidade de metros que separa o flash do assunto fotografado. O mesmo ocorre para “abertura”: é o diafragma da lente que vai expor corretamente a foto. Como esse número é adimensional, o resultado dessa multiplicação é expresso em metros (ou pés, se você gosta de unidades estranhas), logo, o número guia (NG) é uma unidade de distância, por mais estranho que isso possa parecer. Quanto mais alto for o valor do número guia de um flash, mais potente ele será, já que maior será a área de cobertura da luz. Daí vem a noção de número guia associado à potência do aparelho.

Meu SB-800 tem um número-guia de 38m (ou 125 pés) para ISO 100. Ao mudar a sensibilidade do meu filme eu altero a potência do flash, variando também o seu número-guia, mas ao contrário do que se pode esperar, a relação não é linear: o valor não dobra se a sensibilidade duplicar. Leia o manual de instruções para conhecer a potência do seu flash.

Alguns modelos têm a capacidade de concentrar o facho de luz quando o anel de zoom da objetiva é acionado, quanto mais concentrado, maior o alcance do flash, logo, maior o número- guia.

Trocando em miúdos: quanto maiores forem a sensibilidade da câmera, a abertura de sua objetiva e a posição da cabeça do flash, mais potente ele se torna (e menos baterias você gasta).

Então, para fotografar usando flash é necessário multiplicar valores o tempo todo? Não! Os modelos atuais são capazes de fazer isso mais rapidamente que você e com inúmeras vantagens, mas os primeiros equipamentos eletrônicos portáteis, que datam da metade do século passado, obrigavam o fotógrafo a rápidos cálculos e muito treino.

Com o avanço da tecnologia e a miniaturização dos exposure calculator vivitarequipamentos, os fabricantes passaram a criar tabelas com as respectivas relações de distâncias e aberturas correspondentes na parte de trás dos modelos (ou na lateral, veja detalhe à direita).  Bastava estipular a distância do assunto fotografado e checar qual a abertura correta. Para motivos estáticos era uma facilidade, mas caso a distância em relação ao flash se alterasse, o fotógrafo tinha que compensar variando a abertura. Com prática, atingia-se a perfeição.

Repare na foto 2, que mostra a parte de trás de um flash Cullmann com a tabela de exposição. Se o assunto fotografado estiver a 1 metro do flash, a abertura correta a ser usada é o f/16, em ISO 100 (seta vermelha). Mude a distância do assunto para 6 metros e a abertura aumenta para f/2.8 (seta amarela).

Usando esse flash, se eu me aproximo do assunto e não altero a minha abertura, minha foto sai super exposta. Pior, se eu quiser fotografar qualquer coisa a 1 metro de distância, tenho que me contentar com a grande profundidade de campo da abertura fixa em f/16.

Os modelos modernos contam com uma tecnologia de telemetria invejável. Todos os cálculos são feitos na velocidade da luz e garantem uma exposição correta mesmo que o assunto se movimente erráticamente. Como isso é possível?

Seu flash monitora constantemente a quantidade de luz gerada. Considerando que o que ele controla se move a uma velocidade de 300 bilhões de metro por segundo, percebe-se que é um processo muito rápido. Para o seu flash, nada está se movendo, tudo está parado!

Repare, agora, na parte traseira de um SB-800:

sb-800 back Com a abertura ajustada em f/5.6, qualquer assunto entre 60 cm e 6.7 m (os limites dentro do retângulo) pode ser iluminado corretamente. Quando o foco é estabelecido em um plano dentro desses limites, a objetiva envia a distância correta para o flash e, baseado na interpretação do fotômetro da câmera, ele calcula por quanto tempo e em qual intensidade a luz deve incidir no motivo fotografado. É rápido demais para seus olhos enxergarem, e talvez daí venha toda a dificuldade em usá-lo: você deve entender seu funcionamento, já que é impossível ver o que está ocorrendo.

O sistema seria perfeito se não fosse um detalhe: o fotômetro de sua câmera pode ser enganado ao comparar tons excessivamente claros ou escuros com o padrão cinza 18%, e vai passar esse erro adiante para o flash. As iniciais “TTL” no painel do aparelho indicam que ele está contando com as informações do sistema de exposição da sua câmera. Posicione o que quiser fotografar contra um fundo muito claro ou escuro e você vai ter problemas. Para aproveitar todas as vantagens do flash, os conceitos sobre exposição devem estar bem claros. É a única coisa que ele te pede para fazer: “meça corretamente a luz de sua cena que eu me viro para iluminá-la”.

Já que comentei sobre exposição e só mencionei a abertura da objetiva, fica a pergunta: e a velocidade do obturador? Na fórmula NG=abertura x distância, nenhuma variável nos indica qual valor usar. Alguns detalhes merecem explicação.

O disparo acontece em velocidades muito rápidas, um SB-800 descarrega toda a sua potência em apenas um milionésimo de segundo (1/1050 s aproximadamente, segundo o manual). Na menor carga possível (1/128), a velocidade chega a quase quarenta vezes esse valor, 1/ 41.600 s. É mais rápido que qualquer obturador existente nos modelos de câmera atuais.obturador

O obturador de uma SLR (digital ou não) nada mais é do que duas cortinas que se deslocam em sincronia, controlando o tempo que a luz atinge o sensor (ou filme). A partir de uma determinada velocidade, a segunda cortina parte antes que a primeira atinja o fim do percurso. Não há mais uma “janela” possibilitando a exposição de todo o sensor à luz, mas uma fresta que se desloca velozmente.

exposicao_luz_obturador

Dispare um flash nessa velocidade e parte da luz é bloqueada pelas cortinas, causando o aparecimento de tarjas negras na foto.

A maior velocidade que sincroniza a abertura total do obturador com o disparo do flash chama-se velocidade de sincronismo. Consulte o manual para conhecer a da sua câmera. Na D200, por exemplo, é 1/250 s.

Esse valor era um parâmetro a ser considerado nas máquinas mais antigas, que não contavam com a automação presente tanto nos flashes como nas DSLR atuais.

Do mesmo modo que analisa a luz refletida pelo objeto, controlando o momento preciso de interromper a emissão luminosa, flashes como o SB-800/600 são capazes de sincronizar o disparo com QUALQUER velocidade de obturador, emitindo pequenos pacotes de luz enquanto a fresta percorre o quadro. Sua câmera deve ser ajustada para permitir essa operação. Na família D2, habilitando-se a opção 1/250 s (Auto FP), automaticamente o modo de sincronismo em alta velocidade (modo FP) é selecionado. Velocidade de obturador não é mais um problema, seu flash iluminará corretamente a foto mesmo em 1/8000 s, deixando você livre para se preocupar com assuntos mais importantes. Nunca tanta tecnologia esteve disponível ao toque de um botão…

Ok, mas como eu coloco tudo isso para funcionar no momento da foto? Se quiser usá-lo no modo TTL, basta ligar o flash e se concentrar na exposição desejada, mas há outros modos de operação que serão o assunto do próximo artigo.

Observe as fotos abaixo:

thiago e fernanda

Esse retrato dos atores Thiago Rodrigues e Fernanda Vasconcelos foi feito em Amsterdam, durante as gravações da novela “Páginas da Vida”. O sol está a minha esquerda, produzindo uma luz lateral que gera sombras no lado direito dos rostos. Embora eu goste do efeito contrastado, as sombras pronunciadas dificultam a impressão dessa imagem em algumas publicações.

A imagem seguinte foi feita em condição mais crítica: ao posicionar a atriz Ana Paula Arósio contra o sol, ganhei uma bela contraluz, mas joguei todo o seu rosto em uma região de sombra que ia além da capacidade de registro da câmera. Eu conseguia enxergar detalhes ali, mas sabia de antemão que ela sairia escura na foto. Há algum problema com isso? Muitos, se o seu objetivo é mostrar a atriz em um parque em Amsterdam, de nada adianta uma foto que precisa da legenda: “A silhueta na foto é da atriz Ana Paula Arósio”.

ana paula arósio bicicleta

Antes de posicionar todos os elementos, eu medi a luz refletida pelo gramado logo atrás da bicicleta (um tom próximo do cinza 18%): F/10 e 1/60 s em ISO 200, garantindo uma boa profundidade de campo e uma velocidade rápida o suficiente para congelar pequenos movimentos. O ISO baixo garantiu uma imagem livre de ruídos desagradáveis.

Só me restava reduzir o contraste nas sombras, como tinha muito pouco tempo para a sessão de fotos, liguei o flash no modo TTL (certo de que minha exposição fora medida no local correto) e conferi se a distância do meu ponto de foco se encaixava na faixa de iluminação do flash. Encaixava-se. Enquadrei e apertei o disparador!

O flash iluminou o primeiro plano e a velocidade do obturador conseguiu captar toda a luz ambiente, o que é chamado de fill-flash, ou flash de preenchimento. Se eu resolvesse fazer uma imagem utilizando uma velocidade mais rápida que a recomendada, como por exemplo, 1/500 s, acima da velocidade de sincronismo de minha câmera? A foto ao lado mostra um exemplo:

india fundo m escuro

Como um SB-800 sincroniza em qualquer velocidade, a modelo foi iluminada da mesma forma que na foto anterior, só que escureci o fundo ao reduzir em um ponto a velocidade indicada pelo fotômetro.

As imagens a seguir mostram a conseqüência de se “brincar” com o obturador:

Ambas foram feitas em seqüência, com a mesma sensibilidade (ISO 1.000), mesma abertura (f/3.5) e no mesmo local. O flash foi posicionado à direita dos atores Daniel de Oliveira e Stênio Garcia, utilizando-se um cabo de extensão.

daniel de oliveira No primeiro exemplo, um flash de preenchimento iluminou as sombras e deixou balanceadas a luz do fundo (1/60 s de obturador) e a gerada pelo acessório.

Na outra imagem, o flash foi utilizado como luz principal. Como aumentei a velocidade do obturador, não dei tempo para a câmera expor o fundo.

stenio

A capacidade de estabelecer relações com a luz natural é o maior argumento a favor do flash. Adicionar uma luz controlável dá ao fotógrafo a capacidade de alterar a iluminação disponível, forçando-a a trabalhar de acordo com a sua vontade e não o contrário.

Direção e Qualidade da Luz

Seus olhos enxergam o mundo em três dimensões, uma foto o registra em apenas duas: comprimento e largura. Posicionar corretamente o ângulo no qual a luz incide sobre um objeto é a melhor forma de mostrar seu volume, destacar texturas e realçar uma sensação.

Apesar de conveniente, o topo das câmeras é um local curioso para abrigar o encaixe de um acessório de iluminação. Além de incomum, uma luz frontal na altura da cabeça produz sombras desagradáveis que evidenciam o uso do flash, limpa as texturas e “achata” os volumes, além de criar brilhos desnecessários.

A comparação entre a luz do flash e a proporcionada pelo Sol é uma injustiça, haja vista as diferenças de potência e possibilidades, mas uma coisa eles têm em comum: são pequenas fontes de luz.

É estranho fazer essa afirmação para um astro com um diâmetro de 1,4 bilhão de metros, mas sua distância à Terra é tão grande que ele se torna uma fonte luminosa relativamente pequena, cuja principal característica é a rápida transição entre luz e sombra. Veja as fotos abaixo:

eutrataLOW Produzi esse auto-retrato com o SB-800  colocado à esquerda da câmera. Note que a linha que divide a área iluminada do meu rosto da parte na sombra é bem definida, não há uma zona de penumbra como na foto da atriz Paola Oliveira (abaixo), feita com um flash de estúdio com uma caixa difusora (um soft box) de 1,20m x 0,90m colocada bem próxima da modelo. Alterando o tamanho da fonte luminosa, diminuí a “dureza” da luz, fazendo com que ficasse mais difusa.paola

É possível suavizar a iluminação do flash fazendo com que a luz reflita em uma superfície maior antes de iluminar o assunto desejado, como paredes e tetos ou até mesmo rebatedores como isopor ou tecidos. Escolha com cautela a superfície, pois uma parede ou teto coloridos irão alterar a cor da sua cena.

Vários modelos contam com uma cabeça móvel tanto vertical quanto horizontalmente, conseguindo melhorar a direção e qualidade da luz com um rápido movimento, mesmo com flash na sapata da câmera. Veja alguns exemplos:flash no teto

Para evitar as sombras dos atores no fundo da cena, levantei a cabeça do flash e utilizei o teto do barco como rebatedor. A luz vinda de cima é mais natural que a frontal e como a fonte luminosa é uma superfície mais extensa, produziu uma iluminação mais suave em toda a foto.

Com cabeça do flash levantada e a câmera na vertical, usei uma folha grande de isopor como rebatedor para produzir esse retrato da atriz Manoela do Monte, obtendo o mesmo efeito de difusão (repare que a baixa velocidade de obturador permitiu que a iluminação atrás da atriz fosse captada pela câmera)manoela

Uma das grandes vantagens dos equipamentos atuais é a possibilidade de serem disparados fora da câmera, por um sistema de fotocélula. Menos trabalho para o fotógrafo e mais qualidade na luz. Repare na foto da atriz Luli Müller (abaixo), feita com o SB-800 a minha esquerda e com uma tampa difusora, sem o auxílio de nenhum rebatedor.luli muller

Todas as imagens aqui mostradas foram feitas com o flash no modo TTL, as minhas maiores preocupações foram a medição correta da luz e o alcance do flash. Há outros modos de operação, mas tentei me concentrar naquele mais usado pela maioria das pessoas, em um próximo artigo, comentarei detalhadamente sobre as outras possibilidades de uso.

Conhecimento, antecipação e criatividade são a chave para boas fotos. Seu flash pode fazer muito por você em situações onde a luz disponível é ruim, faça fotos de teste e vá criando confiança no uso do equipamento.

Boa sorte e até a próxima!

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As modificações foram feitas por Carlos Alberto Ferreira