Archive janeiro 2010

Procurando Potência? 60

Eu recebi por email duas perguntas interessantes essa semana que se transformaram em bons motivos para novos posts aqui no blog. A primeira vinha de São Paulo e foi respondida com a ajuda de um filete luminoso em um quadro antigo, mas também pudera, o pintor era um gênio.

A outra veio de longe, da Escócia, e me chamou atenção porque foi feita por um engenheiro aposentado que passara os últimos anos aperfeiçoando motores a vapor. Quando longe das caldeiras, ele relaxava brincando com seus SBs. Mandou uma foto sua (que aparece no cabeçalho do post) feita com um SB-800 com sombrinha, montado em velho tripé de ferro. Diz ele:

Renato boa tarde, tudo bem?

Bom primeiramente queria agradecer pelas informações passadas no seu blog, venho acompanhando seu trabalho e aprendendo muito, isso me motiva cada vez mais.

Ficou só uma dúvida que meus amigos da Sociedade Lunar enrolam e não respondem:
Com o SB-800 eu consigo saber que potência usar no flash. Defino como será minha foto, informo a abertura e defino a potência de acordo com distância  entre o flash e objeto estabelecida por mim. Até aí sem problemas. Mas existe algum calculo que me mostre qual potência eu usarei no flash, porque pelo cálculo, NG= F x D, eu acho o numero guia do Flash e não qual a Potência a ser usada. Então a dúvida é:  se eu não tivesse esse sistema no meu flash como eu definiria se o flash ficaria em 1/8, ou 1/16 ou 1/128??

Muito obrigado desde já e desculpa amolar.

Parabéns pelo trabalho Renato.

Cordialmente,

James Watt.

Ora Mr.Watt, eu que devo agradecer pelo seu trabalho e vou tentar mostrar que o senhor já conhece a resposta, só que ela está mascarada por uma aproximação bizarra.

Para efeito prático usarei o SB-800 como exemplo, mas todos os conceitos descritos aqui valem para qualquer tipo de flash, dos speedlights até as tochas de estúdio.

Antes de mexer com a fórmula matemática acima, vale a pena entender o significado do cabalístico “número-guia”. Uma rápida busca no Google nos leva a zilhões de sites com a mesma informação:

“O número-guia (NG) é um indicador da potência de um flash. Quanto mais alto o NG, mais potente o flash.”

A aproximação contida nessa afirmação é devastadora em dois sentidos, complicando o entendimento do flash, acaba por adiar o contato do fotógrafo com o que realmente importa na foto: o comportamento da luz.

Como bem disse Watt, o número guia é expresso como:

NG= distância do FLASH x abertura, ou simplesmente NG= d x f .

Aqui a Matemática começa a mostrar as garras: como a abertura é um número adimensional e a distância é calculada em metros, o resultado dessa multiplicação também tem que ser expresso em metros. Péra aí!!! Se o NG é uma referência da potência de alguma coisa, como ele pode ser expresso em uma unidade de distância?

O manual do flash confirma o nosso espanto, está lá: em ISO 100 e com a cabeça do flash em 35mm, o SB-800 tem um número-guia de 38 METROS, ou seja, naquelas condições, toda a intensidade luminosa que o flash oferece ilumina 38 metros a sua frente.

O número-guia expressa o alcance do flash e nos ajuda a entender sua relação direta com o ISO da câmera e a posição da cabeça de zoom do aparelho.

Atrelar esse significado a uma potência  sugere que ele é incapaz de iluminar algo distante 40 metros, o que não é verdade: feche a cabeça de zoom para 105mm, ainda em ISO 100, e o NG dispara para 56 metros.

Não importa o valor da potência, mas sim o que você é capaz de fazer com ela. Além disso, começar a conhecer um acessório carregado de antigos tabus por uma unidade tão amigável quanto o metro é bem mais agradável ( e correto) do que um “joule por segundo”.

Com o valor do número-guia é possível determinar a posição exata do seu flash para cada diafragma de sua lente, como na tabela abaixo:

NG 38 (SB-800 em 35mm/ ISO 100)
f/ 2.8 4 5.6 8 11 16 22
m 13 9.5 6,7 4.8 3.4 2.4 1.7

Esses valores em metros aparecem no painel do SB no modo Manual, com a carga em 1/1 e a cabeça em 35mm. Basta variar a abertura e o flash faz a conta para você, foi com um SB que eu preenchi a tabela.

Eles são uma referência numérica de como a luz se comportará na sua foto antes mesmo dela acontecer.

Por exemplo, se eu quisesse fazer um retrato utilizando uma abertura f/4 teria que colocar meu flash a 9,5m da pessoa para obter uma exposição correta da luz do flash. Muitos problemas podem surgir daí:  eu não tenho esse recuo todo no estúdio onde trabalho ou se preferisse fazer em um local externo, provavelmente encontraria postes, árvores, placas, pessoas, carros, paredes bloqueando parte da luz.

A distância em que se coloca o flash também altera a qualidade e o comportamento da luz:  a 9,5 metros do assunto o flash troca intensidade por abrangência luminosa, fazendo com que uma luz dura atinja tanto a pessoa quanto o fundo onde ela está (considerando-se que a pessoa esteja bem próxima do fundo).

Mesmo com toda a precisão matemática, esses valores são referenciais, uma tentativa daquela caixinha preta luminosa de te ajudar a entender a sua foto sem perda de tempo, bateria ou equipamento extra, eles podem (e devem) ser alterados conforme a sua necessidade e criatividade.

Para evitar todos os problemas acima, eu preciso aproximar o flash da pessoa, posso escolher uma posição onde já conheça uma informação, como por exemplo: 1,7 m.

Acompanhando a tabela, nota-se que nessa distância o flash despeja tanta luz que a tabela me indica um abertura f/22, só que eu fotografo em f/4, estou 5 f/stops além da exposição correta. Como cada abertura de diafragma permite a entrada do dobro de luz, uma quantidade 32 vezes além da ideal estoura no sensor da câmera. Como não quero mudar a abertura e muito menos a distância, a única solução é diminuir a quantidade de luz, logo, deve-se utilizar 1/32 da carga inicial.

É esse o valor que aparece no painel do SB: 1/32 da carga em f/4 e 1,7 m. Teste agora com o seu equipamento, perca o medo, é realmente simples!

Lógico que todas as variações possíveis são impossíveis de se memorizar ou anotar, mas todas elas já foram testadas, comprovadas e embutidas no flash pela fábrica, um batalhão de estagiários com olhos puxados teve um trabalho danado para que você só precise informar a abertura que deseja fotografar e variar a carga até que encontre a distância ideal de posicionamento do flash.  Simples e seguro, sem a necessidade de nenhum equipamento extra, calculadora ou uma prece…rsrsrsr.

Espero que tenha ajudado, Mr.Watt!

Boa Sorte!

Uma capa em 15 minutos. 81

Eu estava pedindo meu almoço na praça de alimentação do Projac quando, ao olhar para trás, reparei que a Adriana segurava um rádio e sorria estranhamente para mim:

“Que bom te encontrar Renato, preciso de uma foto para a capa do CD de Viver a Vida até amanhã às 14 horas…”

Adeus, almoço!  Perguntei como o Jayme queria a foto e com um clique no rádio eu ouvi a resposta dele:

Solar!”

Enquanto caminhava em direção ao estúdio A, o SB-800 arfava no meu peito, mas dessa vez iria precisar de uma ajuda do arsenal luminoso dentro dos estúdios de gravação.

Para a minha tranquilidade o cenário montado simulava uma pousada em Búzios. A associação foi imediata: pousada, Búzios, praias, sol…”SOLAR”! Tinha encontrado o ambiente certo para as fotos!

Enquanto procurava o fundo ideal, acertava com o iluminador do estúdio todos os detalhes da foto. Tudo estranhamente se encaixava: A Taís Araújo chegaria no dia seguinte às 11 h, tinha uma hora para maquiagem, cabelo,  figurino e de meio dia a uma da tarde eu clicaria a capa, liberando o estúdio para as gravações. Perfeito!

Mas para sobreviver no mundo da TV, você deve esperar pelo inesperado!

Quando entrei no estúdio na manhã seguinte, em vez de uma solar pousada em Búzios, encontro um frio hotel no Rio, tão gelado quanto a minha cara de espanto. Uma alteração de última hora havia mudado o roteiro de gravação e me colocado em maus lençóis…Procurei pela Taís e ela já estava praticamente pronta e eu ainda sem lugar para fotografar. Pensei em fazer a foto no nosso estúdio fotográfico, mas outro fotógrafo estava lá, corri para fora do prédio e dei de cara com o SB deitado embaixo de uma árvore, se protegendo do sol escaldante do verão carioca. Ele sorria descaradamente para mim, quase dizendo “eu te avisei, né?”

A árvore onde ele estava proporcionava uma grande área de sombra, bloqueando a luz dura do Sol do meio-dia e garantindo uma iluminação indireta e suave vinda de todos os lados e ainda poupava alguns litros de suor da Taís.

Embora confortável, aquele ambiente era uma sinuca de bico fotográfica: fotometre na sombra e ganhe um fundo estourado, fotometre o fundo e veja uma silhueta de Taís na capa de um CD…

Procure por uma exposição intermediária e o resultado pode ser conferido abaixo:

Taís Araújo

D200, ISO 100, f/5.6 e 1/80 s, o mundo é visto por uma 70-200 f/2.8

É a luz que excita sua vista, a leve explosão luminosa atrás da atriz ganha a guerra pela atenção dos seus olhos, mas você quer exatamente o oposto. A Taís está lá, mas perde para um arbusto em chamas.

Há 2 soluções aqui: diminuir a intensidade luminosa do fundo ou despejar mais luz na área de sombra. “Mais luz” foi a senha para o SB pular para um tripé Manfrotto.

D200, ISO 100, f/5.6 e 1/80 s, ainda com a 70-200

Câmera, lente, distância focal, abertura, obturador e a pose e enquadramento são os mesmos nas duas imagens e ainda assim, elas são completamente diferentes. É a luz fazendo seu trabalho (e como amo esse trabalho…rsrsr).

A segunda imagem mostra o volume do corpo e cabelo, a textura da pele e do vestido, destaca a atriz do fundo e ainda confere um brilho nos olhos dela. Coitado do arbusto em chamas…

Durante o workshop de flash eu comentei que havia feito essa foto com 2 SBs, mas o hábito me levou a um erro: a luz principal é um flash Atek a bateria, um Shine 500, montado em uma sombrinha branca difusora. Ele foi posicionado logo a minha direita, bem no eixo do rosto da Taís. Nosso fotógrafo paulista Zé Paulo Cardeal está agachado abaixo do quadro segurando um rebatedor prata para diminuir as sombras no pescoço.

O SB-800 (Com um gel 1/2 CTO) está lá atrás, funcionando como uma contraluz e sendo disparado pelo Atek. Esse é outro trunfo dos SB’s: no modo SU-4, eles podem ser disparados por qualquer outro flash, desde a mais simples Cybershot da vida até o mais poderoso flash de estúdio. Qualquer flash, de qualquer marca. Os cães não te abandonam!

Nikon SU-4

o SU-4 da Nikon é, na verdade, um disparador remoto (vendido separadamente) que pode ser usado em alguns flashes e câmeras antigas da marca, mas tanto o SB-800 como o 900 têm um módulo desses embutido.

PARA PROGRAMAR O MODO SU-4 NO SB-800:

página de configuração do SB-800

1-Com o flash no modo normal de operação, mantenha apertado o botão central “SEL” por aprox. 3 seg. O SB entra na página de configuração, na esquerda do painel há 2 colunas com ícones de função, procure pelo ícone que mostra um “raio” entrando e saindo de um flash.

2-Com o ícone selecionado, pressione “SEL” por 1 seg. Use os botões “+” e “-” para navegar entre as opções a sua direita: OFF, MASTER, MASTER RPT, REMOTE E SU-4. Escolha o SU-4 e aperte novamente o “SEL” por mais 3 seg para ativar a escolha.

3-Nesse modo, use o botão “MODE” para alternar entre o modo AUTO e o MANUAL.

No modo AUTO, o flash calcula a potência correta baseado no disparo da unidade master. Funciona bem na maioria dos casos, mas eu prefiro deixar as coisas sob o meu controle, escolhendo sempre o modo MANUAL. Através das teclas “+’e “-” consegue-se mudar a potência do SB, o correto é usar um fotômetro para calcular a carga correta, mas no caso da foto acima, a pressa me fez confiar nos meus olhos e no LCD da câmera tanto para ajustar a potência do SB quanto a do Atek.

Uma dica: o que eu fiz foi uma estupidez. Use o fotômetro sempre e se afaste de quem diz que as digitais tornaram o uso desse equipamento dispensável. Confie nele, em um ambiente ensolarado como aquele é fácil ser confundido pelo LCD da câmera. Um fotômetro simples e barato é melhor que nenhum fotômetro. Compre um e mantenha-o sempre consigo.

PARA PROGRAMAR O MODO SU-4 NO SB-900:

SB-900 EM SU-4

1- Pressione o botão “OK” por 2 segundos, a página de configuração aparece.

2- Gire o “dial” até o quarto ícone, SU-4.

3- Aperte “ok” e selecione “ON” para ativar a função. Confirme com o botão “ok” novamente.

4-Aperte em “EXIT” na esquerda do painel.

Note que o flash volta a operação normal, mas ao mexer a alavanca a direita para o modo “REMOTE”, é o modo SU-4 que aparece.

Pronto, as portas da versatilidade foram abertas!

Depois de todos os ajustes necessários, cliquei o máximo que pude, gravei um DVD com as fotos em RAW e entreguei para o motoboy que já me esperava na portaria.

Depois de um tratamento básico no Photoshop (não feito por mim) e uma fusão de imagens no fundo, a capa ficou pronta:

Capa do CD Viver a Vida

Agora no trabalho temos a chance de filmar eventos interessantes graças à aquisição de um Nokia N85, um celular capaz de fazer vídeos em VGA com uma qualidade mais do que aceitável. Se você achava o trabalho fotográfico complicado depois do advento das digitais, imagine agora com a possibilidade de gravar e fotografar com o mesmo equipamento e com mídias que aceitam essa revolução. É melhor se preparar, pois nosso ofício acaba de entrar em uma nova fase: tudo ao mesmo tempo agora!!

Um pequeno vídeo da sessão fotográfica pode ser visto abaixo:

ou em caso de pane geral, clique aqui para ver o video na página da Rede Globo.

Eu estava com saudades disso aqui, desculpem pelo sumiço! A vida voltou ao normal!

Ponto para os cães! Sempre!

Boa sorte em 2010. Verdade e Coragem para todos!

abraços

I LOVE MY JOB utiliza WordPress com FREEmium Theme.
As modificações foram feitas por Carlos Alberto Ferreira