Archive março 2008

Flash: um pouco de luz no assunto… 20

ANA PAULA AMSTERDAM abre

Eu sei… O trocadilho do título é infame, mas quem já tentou ler as instruções de qualquer modelo atual deve ter se sentido perdido lá pela página 3. Como a tecnologia presente nesses equipamentos é revolucionária e a linguagem utilizada nos seus manuais mostra como um escritor pode ser sádico, os usuários comuns ficam com a falsa sensação de que basta programá-los para funcionar no modo TTL que todas as suas dúvidas serão sanadas e assim, acabam perdendo uma excelente oportunidade de aprender um pouco mais sobre luz e de como expandir os limites da sua criatividade.

Aquele que deseja se profissionalizar ou aprimorar sua prática fotográfica deve perder o medo e aprender a usar corretamente o flash para se destacar em um mercado repleto de desinformação e dogmas ultrapassados.

Nesse texto eu tentarei explicar alguns conceitos básicos que vão ajudar você a usar com tranqüilidade esse acessório poderoso e injustamente criticado, mas antes de avançarmos eu devo avisá-lo que usarei como exemplos câmeras digitais e flashes da Nikon, isso não deve ser entendido como um atestado de supremacia de uma marca, os conceitos e operações aqui descritos valem para qualquer equipamento atual, mas se você ainda insiste em achar que um determinado fabricante é capaz de produzir imagens “melhores” que as de outro, talvez seja uma boa hora de rever seus conceitos. Uma máquina fotográfica é apenas uma ferramenta, sozinha ela não passa de um caríssimo enfeite de estante. Seu cérebro é que faz toda a diferença. Use-o!

Por que usar o flash?

Uma das maiores dificuldades para qualquer fotógrafo é compreender como a cena que ele está vendo será registrada em um filme ou sensor digital. Seus olhos são infinitamente mais sensíveis que qualquer fotômetro, eles conseguem perceber diferenças de contrastes de até 13 pontos (alguns autores falam em até 20) enquanto sua câmera só registra variações de no máximo 5. Voltando aos conceitos básicos de exposição, lembre-se de que abrindo um ponto (stop) no diafragma, o dobro da quantidade de luz atinge o sensor de sua câmera, portanto seus olhos têm uma vantagem de 28 em relação a seu fotômetro. É uma diferença abissal, mas não se incomode se você matou a aula de exponenciação no colégio, o detalhe a considerar é que você “vê” duzentas vezes mais alterações de contraste que sua câmera.

Para ilustrar esse conceito, observe a foto abaixo:

fogos em taperoá

É a típica cena de por-do-sol com um motivo interessante acontecendo no primeiro plano. Eu conseguia enxergar todos os detalhes da cena: o céu, os jovens com os fogos de artifício e até a textura da cruz. Eu medi a luz no céu (f/7.1, 1/180s) e logo depois a área de sombra (f/7.1, 1 s).

A diferença entre a alta e baixa luz é bem maior que os 5 pontos de contraste que o sensor pode captar. Ao ajustar a exposição para a alta luz, forcei a câmera a escurecer o primeiro plano, dando à foto a dramaticidade que eu procurava.

Se eu tivesse escolhido a menor velocidade de obturador na sombra, teria mostrado os detalhes do primeiro plano, mas perderia toda a beleza do céu com uma superexposição desagradável.

Observe o resultado na foto abaixo, onde exagerei no photoshop os efeitos da exposição na sombra.

fogos em taperoáLUZ

Para fazer com que a câmera registrasse a imagem que meus olhos estavam vendo, eu devo diminuir o contraste da cena. Como? Adicionando mais luz nas áreas de sombra, alterando assim a exposição das baixas luzes.

Essa é exatamente a função básica do flash: diminuir o contraste de uma imagem.

Quando usar o flash?

A resposta é simples: quando você quiser. No nascer do sol, ao meio dia, em locais abertos ou fechados, no por-do-sol, à noite, com altas ou baixas sensibilidades de filme, etc. Seu flash é apenas uma fonte de luz auxiliar. Não existe um livro de estética ou regras sagradas para o uso desse acessório, em algumas situações você deve usá-lo para obter a melhor imagem possível, em outras, você está no comando, seu gosto pessoal ou alguma decisão específica de um cliente é que vão determinar se vale à pena diminuir o contraste da cena. Na imagem que utilizei como exemplo, não era a minha intenção mostrar detalhes na sombra, logo, mantive o flash na mochila.

É lógico que o bom senso (e seu irmão mais velho, o bom gosto) deve sempre acompanhar o fotógrafo. Muitas vezes eu tenho que abdicar do meu gosto pessoal para atender as exigências de um trabalho. Seus clientes não se importam com suas pretensões artísticas, se você é contratado para fotografar um produto, uma modelo ou um evento, o assunto principal deve estar destacado e iluminá-lo corretamente é a melhor forma de garantir isso. Aprenda a separar o que você gosta do que os que seus clientes gostam.

Como o flash funciona?

Antes de tudo, ele é um equipamento limitado, não é um Sol portátil alimentado por 4 pilhas AA. Eu acho estranho ver torcedores de futebol, sentados na última fileira da arquibancada, disparando os flashes de suas máquinas quando os jogadores comemoram um gol no gramado. Se a luz gerada pudesse iluminar corretamente 200 metros à frente, seus companheiros de torcida logo abaixo seriam vaporizados no momento do clique.

O funcionamento de um flash obedece a uma fórmula matemática simples:

No guia= abertura x distância

Bom, não há muito que explicar o que significa “distância” na fórmula: é a quantidade de metros que separa o flash do assunto fotografado. O mesmo ocorre para “abertura”: é o diafragma da lente que vai expor corretamente a foto. Como esse número é adimensional, o resultado dessa multiplicação é expresso em metros (ou pés, se você gosta de unidades estranhas), logo, o número guia (NG) é uma unidade de distância, por mais estranho que isso possa parecer. Quanto mais alto for o valor do número guia de um flash, mais potente ele será, já que maior será a área de cobertura da luz. Daí vem a noção de número guia associado à potência do aparelho.

Meu SB-800 tem um número-guia de 38m (ou 125 pés) para ISO 100. Ao mudar a sensibilidade do meu filme eu altero a potência do flash, variando também o seu número-guia, mas ao contrário do que se pode esperar, a relação não é linear: o valor não dobra se a sensibilidade duplicar. Leia o manual de instruções para conhecer a potência do seu flash.

Alguns modelos têm a capacidade de concentrar o facho de luz quando o anel de zoom da objetiva é acionado, quanto mais concentrado, maior o alcance do flash, logo, maior o número- guia.

Trocando em miúdos: quanto maiores forem a sensibilidade da câmera, a abertura de sua objetiva e a posição da cabeça do flash, mais potente ele se torna (e menos baterias você gasta).

Então, para fotografar usando flash é necessário multiplicar valores o tempo todo? Não! Os modelos atuais são capazes de fazer isso mais rapidamente que você e com inúmeras vantagens, mas os primeiros equipamentos eletrônicos portáteis, que datam da metade do século passado, obrigavam o fotógrafo a rápidos cálculos e muito treino.

Com o avanço da tecnologia e a miniaturização dos exposure calculator vivitarequipamentos, os fabricantes passaram a criar tabelas com as respectivas relações de distâncias e aberturas correspondentes na parte de trás dos modelos (ou na lateral, veja detalhe à direita).  Bastava estipular a distância do assunto fotografado e checar qual a abertura correta. Para motivos estáticos era uma facilidade, mas caso a distância em relação ao flash se alterasse, o fotógrafo tinha que compensar variando a abertura. Com prática, atingia-se a perfeição.

Repare na foto 2, que mostra a parte de trás de um flash Cullmann com a tabela de exposição. Se o assunto fotografado estiver a 1 metro do flash, a abertura correta a ser usada é o f/16, em ISO 100 (seta vermelha). Mude a distância do assunto para 6 metros e a abertura aumenta para f/2.8 (seta amarela).

Usando esse flash, se eu me aproximo do assunto e não altero a minha abertura, minha foto sai super exposta. Pior, se eu quiser fotografar qualquer coisa a 1 metro de distância, tenho que me contentar com a grande profundidade de campo da abertura fixa em f/16.

Os modelos modernos contam com uma tecnologia de telemetria invejável. Todos os cálculos são feitos na velocidade da luz e garantem uma exposição correta mesmo que o assunto se movimente erráticamente. Como isso é possível?

Seu flash monitora constantemente a quantidade de luz gerada. Considerando que o que ele controla se move a uma velocidade de 300 bilhões de metro por segundo, percebe-se que é um processo muito rápido. Para o seu flash, nada está se movendo, tudo está parado!

Repare, agora, na parte traseira de um SB-800:

sb-800 back Com a abertura ajustada em f/5.6, qualquer assunto entre 60 cm e 6.7 m (os limites dentro do retângulo) pode ser iluminado corretamente. Quando o foco é estabelecido em um plano dentro desses limites, a objetiva envia a distância correta para o flash e, baseado na interpretação do fotômetro da câmera, ele calcula por quanto tempo e em qual intensidade a luz deve incidir no motivo fotografado. É rápido demais para seus olhos enxergarem, e talvez daí venha toda a dificuldade em usá-lo: você deve entender seu funcionamento, já que é impossível ver o que está ocorrendo.

O sistema seria perfeito se não fosse um detalhe: o fotômetro de sua câmera pode ser enganado ao comparar tons excessivamente claros ou escuros com o padrão cinza 18%, e vai passar esse erro adiante para o flash. As iniciais “TTL” no painel do aparelho indicam que ele está contando com as informações do sistema de exposição da sua câmera. Posicione o que quiser fotografar contra um fundo muito claro ou escuro e você vai ter problemas. Para aproveitar todas as vantagens do flash, os conceitos sobre exposição devem estar bem claros. É a única coisa que ele te pede para fazer: “meça corretamente a luz de sua cena que eu me viro para iluminá-la”.

Já que comentei sobre exposição e só mencionei a abertura da objetiva, fica a pergunta: e a velocidade do obturador? Na fórmula NG=abertura x distância, nenhuma variável nos indica qual valor usar. Alguns detalhes merecem explicação.

O disparo acontece em velocidades muito rápidas, um SB-800 descarrega toda a sua potência em apenas um milionésimo de segundo (1/1050 s aproximadamente, segundo o manual). Na menor carga possível (1/128), a velocidade chega a quase quarenta vezes esse valor, 1/ 41.600 s. É mais rápido que qualquer obturador existente nos modelos de câmera atuais.obturador

O obturador de uma SLR (digital ou não) nada mais é do que duas cortinas que se deslocam em sincronia, controlando o tempo que a luz atinge o sensor (ou filme). A partir de uma determinada velocidade, a segunda cortina parte antes que a primeira atinja o fim do percurso. Não há mais uma “janela” possibilitando a exposição de todo o sensor à luz, mas uma fresta que se desloca velozmente.

exposicao_luz_obturador

Dispare um flash nessa velocidade e parte da luz é bloqueada pelas cortinas, causando o aparecimento de tarjas negras na foto.

A maior velocidade que sincroniza a abertura total do obturador com o disparo do flash chama-se velocidade de sincronismo. Consulte o manual para conhecer a da sua câmera. Na D200, por exemplo, é 1/250 s.

Esse valor era um parâmetro a ser considerado nas máquinas mais antigas, que não contavam com a automação presente tanto nos flashes como nas DSLR atuais.

Do mesmo modo que analisa a luz refletida pelo objeto, controlando o momento preciso de interromper a emissão luminosa, flashes como o SB-800/600 são capazes de sincronizar o disparo com QUALQUER velocidade de obturador, emitindo pequenos pacotes de luz enquanto a fresta percorre o quadro. Sua câmera deve ser ajustada para permitir essa operação. Na família D2, habilitando-se a opção 1/250 s (Auto FP), automaticamente o modo de sincronismo em alta velocidade (modo FP) é selecionado. Velocidade de obturador não é mais um problema, seu flash iluminará corretamente a foto mesmo em 1/8000 s, deixando você livre para se preocupar com assuntos mais importantes. Nunca tanta tecnologia esteve disponível ao toque de um botão…

Ok, mas como eu coloco tudo isso para funcionar no momento da foto? Se quiser usá-lo no modo TTL, basta ligar o flash e se concentrar na exposição desejada, mas há outros modos de operação que serão o assunto do próximo artigo.

Observe as fotos abaixo:

thiago e fernanda

Esse retrato dos atores Thiago Rodrigues e Fernanda Vasconcelos foi feito em Amsterdam, durante as gravações da novela “Páginas da Vida”. O sol está a minha esquerda, produzindo uma luz lateral que gera sombras no lado direito dos rostos. Embora eu goste do efeito contrastado, as sombras pronunciadas dificultam a impressão dessa imagem em algumas publicações.

A imagem seguinte foi feita em condição mais crítica: ao posicionar a atriz Ana Paula Arósio contra o sol, ganhei uma bela contraluz, mas joguei todo o seu rosto em uma região de sombra que ia além da capacidade de registro da câmera. Eu conseguia enxergar detalhes ali, mas sabia de antemão que ela sairia escura na foto. Há algum problema com isso? Muitos, se o seu objetivo é mostrar a atriz em um parque em Amsterdam, de nada adianta uma foto que precisa da legenda: “A silhueta na foto é da atriz Ana Paula Arósio”.

ana paula arósio bicicleta

Antes de posicionar todos os elementos, eu medi a luz refletida pelo gramado logo atrás da bicicleta (um tom próximo do cinza 18%): F/10 e 1/60 s em ISO 200, garantindo uma boa profundidade de campo e uma velocidade rápida o suficiente para congelar pequenos movimentos. O ISO baixo garantiu uma imagem livre de ruídos desagradáveis.

Só me restava reduzir o contraste nas sombras, como tinha muito pouco tempo para a sessão de fotos, liguei o flash no modo TTL (certo de que minha exposição fora medida no local correto) e conferi se a distância do meu ponto de foco se encaixava na faixa de iluminação do flash. Encaixava-se. Enquadrei e apertei o disparador!

O flash iluminou o primeiro plano e a velocidade do obturador conseguiu captar toda a luz ambiente, o que é chamado de fill-flash, ou flash de preenchimento. Se eu resolvesse fazer uma imagem utilizando uma velocidade mais rápida que a recomendada, como por exemplo, 1/500 s, acima da velocidade de sincronismo de minha câmera? A foto ao lado mostra um exemplo:

india fundo m escuro

Como um SB-800 sincroniza em qualquer velocidade, a modelo foi iluminada da mesma forma que na foto anterior, só que escureci o fundo ao reduzir em um ponto a velocidade indicada pelo fotômetro.

As imagens a seguir mostram a conseqüência de se “brincar” com o obturador:

Ambas foram feitas em seqüência, com a mesma sensibilidade (ISO 1.000), mesma abertura (f/3.5) e no mesmo local. O flash foi posicionado à direita dos atores Daniel de Oliveira e Stênio Garcia, utilizando-se um cabo de extensão.

daniel de oliveira No primeiro exemplo, um flash de preenchimento iluminou as sombras e deixou balanceadas a luz do fundo (1/60 s de obturador) e a gerada pelo acessório.

Na outra imagem, o flash foi utilizado como luz principal. Como aumentei a velocidade do obturador, não dei tempo para a câmera expor o fundo.

stenio

A capacidade de estabelecer relações com a luz natural é o maior argumento a favor do flash. Adicionar uma luz controlável dá ao fotógrafo a capacidade de alterar a iluminação disponível, forçando-a a trabalhar de acordo com a sua vontade e não o contrário.

Direção e Qualidade da Luz

Seus olhos enxergam o mundo em três dimensões, uma foto o registra em apenas duas: comprimento e largura. Posicionar corretamente o ângulo no qual a luz incide sobre um objeto é a melhor forma de mostrar seu volume, destacar texturas e realçar uma sensação.

Apesar de conveniente, o topo das câmeras é um local curioso para abrigar o encaixe de um acessório de iluminação. Além de incomum, uma luz frontal na altura da cabeça produz sombras desagradáveis que evidenciam o uso do flash, limpa as texturas e “achata” os volumes, além de criar brilhos desnecessários.

A comparação entre a luz do flash e a proporcionada pelo Sol é uma injustiça, haja vista as diferenças de potência e possibilidades, mas uma coisa eles têm em comum: são pequenas fontes de luz.

É estranho fazer essa afirmação para um astro com um diâmetro de 1,4 bilhão de metros, mas sua distância à Terra é tão grande que ele se torna uma fonte luminosa relativamente pequena, cuja principal característica é a rápida transição entre luz e sombra. Veja as fotos abaixo:

eutrataLOW Produzi esse auto-retrato com o SB-800  colocado à esquerda da câmera. Note que a linha que divide a área iluminada do meu rosto da parte na sombra é bem definida, não há uma zona de penumbra como na foto da atriz Paola Oliveira (abaixo), feita com um flash de estúdio com uma caixa difusora (um soft box) de 1,20m x 0,90m colocada bem próxima da modelo. Alterando o tamanho da fonte luminosa, diminuí a “dureza” da luz, fazendo com que ficasse mais difusa.paola

É possível suavizar a iluminação do flash fazendo com que a luz reflita em uma superfície maior antes de iluminar o assunto desejado, como paredes e tetos ou até mesmo rebatedores como isopor ou tecidos. Escolha com cautela a superfície, pois uma parede ou teto coloridos irão alterar a cor da sua cena.

Vários modelos contam com uma cabeça móvel tanto vertical quanto horizontalmente, conseguindo melhorar a direção e qualidade da luz com um rápido movimento, mesmo com flash na sapata da câmera. Veja alguns exemplos:flash no teto

Para evitar as sombras dos atores no fundo da cena, levantei a cabeça do flash e utilizei o teto do barco como rebatedor. A luz vinda de cima é mais natural que a frontal e como a fonte luminosa é uma superfície mais extensa, produziu uma iluminação mais suave em toda a foto.

Com cabeça do flash levantada e a câmera na vertical, usei uma folha grande de isopor como rebatedor para produzir esse retrato da atriz Manoela do Monte, obtendo o mesmo efeito de difusão (repare que a baixa velocidade de obturador permitiu que a iluminação atrás da atriz fosse captada pela câmera)manoela

Uma das grandes vantagens dos equipamentos atuais é a possibilidade de serem disparados fora da câmera, por um sistema de fotocélula. Menos trabalho para o fotógrafo e mais qualidade na luz. Repare na foto da atriz Luli Müller (abaixo), feita com o SB-800 a minha esquerda e com uma tampa difusora, sem o auxílio de nenhum rebatedor.luli muller

Todas as imagens aqui mostradas foram feitas com o flash no modo TTL, as minhas maiores preocupações foram a medição correta da luz e o alcance do flash. Há outros modos de operação, mas tentei me concentrar naquele mais usado pela maioria das pessoas, em um próximo artigo, comentarei detalhadamente sobre as outras possibilidades de uso.

Conhecimento, antecipação e criatividade são a chave para boas fotos. Seu flash pode fazer muito por você em situações onde a luz disponível é ruim, faça fotos de teste e vá criando confiança no uso do equipamento.

Boa sorte e até a próxima!

E Deus disse: “Faça-se a luz!” 183

Eu sempre suspeitei que Ele gostava de fotografia…

e agradeço diariamente por isso!

Em 1989 eu me formava no Colégio Santo Agostinho, no Leblon (RJ). Diante de uma folha de papel que tentava determinar o meu destino, eu marquei um “X” em um quadradinho onde, ao lado, se lia: Engenharia.

“É uma profissão que te garante sucesso em muitas áreas”, “aproveite que seu tio tem uma construtora”, “você tem que pensar em ganhar dinheiro e ter uma vida tranqüila”. Sinceramente eu nunca tive dúvidas que meu futuro não estava dentro dos barracões de obra,  mas argumentos como aqueles eram sedutores para um jovem de 18 anos.

Na PUC aprendi derivadas, integrais duplas e triplas, equações diferencias, muita física e matemática. No trabalho consultava tabelas e ligava diariamente para todas as empresas que auxiliam na construção de um pequeno prédio: topografia, cálculos, ferro, forma, concreto e por aí vai…

Com o tempo vi que uma secretária e um macaco bem treinado fariam meu trabalho com perfeição, e com maiores dividendos para o meu tio, já que eu não era, nem de longe, um exemplo de motivação.

Uma década depois eu estava vários quilos acima do meu peso, rabugento e louco para mudar de vida. Só me lembrava de uma enciclopédia da TIME-LIFE que meu pai comprou para mim quando ainda era bem pequeno. Uma enciclpédia dividida de forma diferente, em vez de verbetes, assuntos variados: os animais, os insetos, os desertos, a Terra, as plantas, o universo, etc.

Li e reli aqueles livros dezenas de vezes, mas o que mais me impressionava eram as imagens de locais desconhecidos, gente estranha, animais selvagens e galáxias distantes. Imagens! Se todas as palavras fossem retiradas daquelas páginas meu encanto permaneceria igual. Ainda garoto nem desconfiava que existia a profissão de fotógrafo, mas sabia que produzir imagens como aquelas me daria grande satisfação.

Dentro do barracão de obra, com 28 anos, sentia que havia um abismo entre o que fazia e o que gostaria de fazer, mas como explicar para todo mundo que eu não desejava ser engenheiro?

“Eu imagino você atrás de uma mesa, gerenciando uma multi-nacional” disse-me uma vez minha mãe, no auge da minha confusão vocacional. “Seu filho seria o homem mais infeliz do mundo” foi uma tentativa de a fazer compreender.

“Renato, está vendo aquela cadeira ali?” apontou meu tio para atrás da mesa do escritório… “Passei 24 anos sentado nela”…” Meu Deus! Meu tio é um paraplégico!” pensei. Sabia que ele jamais entenderia, tinha que acertar no ponto de maior dor: “Sabe essa empresa que você tanto lutou para manter de pé? Eu vou falir com ela em um ano, não tenho o mesmo tesão que você”. Ele compreendeu rapidamente.

Visitando meu avô Arnaldo, corretor de imóveis e responsável pelo lançamento e vendas de um shopping na Barra da Tijuca, vi uma das primeiras lojas abertas para as ruas internas, a Visual Arts, uma escola de fotografia. Eu carregava comigo duas ampliações que acabara de fazer em um laboratório próximo. A escola estava em obras e a secretária (Lia, uma figuraça) me viu com o envelope e perguntou: “não se interessa em fazer cursos de fotografia?”. Minha mulher me acompanhava e comentou que seria uma boa terapia, que eu precisava de um descanso, de um tempo para mim. Balbuciei um sim e ela me mostrou o interior da escola, conversei com um dos donos (André, outra figura!) que me convidou a voltar dali há 2 semanas quando a escola estaria pronta. Todos sorriam estranhamente, sempre que eu comentava que queria ser fotógrafo, as pessoas me olhavam como se eu tivesse 3 braços.

Voltei, me matriculei e os sorrisos estranhos continuavam, ninguém questionava a minha opção de mudança, não encontrava entre os alunos nenhum revoltado por não estar fazendo o que gostava, ninguém obrigado pela famíla a seguir a profissão de fotógrafo, nenhum filho que desejava ser médico e o pai o desmotivava, dizendo que já tinha comprado uma Nikon F5, um flash, e 3 objetivas, todas f/2.8. Era pura paixão!

Eu sei que é possível aprender a fotografar sozinho, com livros e na base de tentativa e erro, mas a vantagem de se matricular em um curso é que a empolgação é contagiante.

O que era para ser uma terapia virou uma motivação, fiz 5 cursos seguidos, no último deles, Fotografia de Natureza, conheci um professor que seria um exemplo de fotógrafo, além de se tornar um grande amigo, Fábio Elias.

Ele estava terminando de montar uma empresa chamada Imagens & Aventuras,  cujo objetivo era ensinar fotografia em viagens a locais exóticos pelo mundo. O primeiro roteiro já estava traçado: India e Nepal, com direito a um trekking de 15 dias até Gokyo Peak, uma montanha nepalesa (5.700m) onde se tem um ótimo ponto de observação do Everest. Pronto! não havia como voltar atrás, vendi meu carro, aproveitei o câmbio favorável e mergulhei nas páginas da minha enciclopédia da infância: As Montanhas.

Um mês antes da viagem, minhas 2 câmeras quebraram, só restou uma velha Nikon FM10, sem objetiva, tive que comprar uma 50 mm f/1.4 lá no Nepal, que carrego comigo até hoje, um amuleto de 250 dólares e ótica impecável.

Se eu precisava de um motivo para trocar de profissão, encontrei vários na viagem. Fábio sabia que eu queria me tornar um profissional e me dava conselhos e me cobrava como um. Eu escutava e fotografa como um louco. Passei dias diminuindo a minha angústia conversando com uma amiga da viagem, Carla Durante. Conversávamos sobre como seria minha vida depois daquela viagem. Hoje, gostaria de encontrá-la para tomarmos um café e darmos boas risadas…Viver é bom, poder registrar isso é melhor ainda!

Depois que voltamos, a escola organizou uma exposição com as fotos e já não trabalhava mais como engenheiro, eu era um fotógrafo! Como não havia feito nada antes da viagem, foi difícil para o “fotógrafo” empolgado arrumar trabalho, passei um ano sem  conseguir ser pago para dar um clique sequer, minha mulher acertava as contas (tentava) dando aulas de inglês de 6 da manhã até às 8 da noite, até que, no meio de uma tarde nublada o telefone tocou. Era uma gerente da Central Globo de Comunicação. Eu estava em casa, já pensando que o ambiente da obra não era tão ruim assim, quando ela me disse que a Rede Globo estava precisando de um fotógrafo que gostasse de fotografar no meio da natureza, que ela lembrava do meu nome de uma exposição e que gostaria de conversar comigo. “Traga seu portfólio”. Eu sabia que ela não iria gostar de ver fotos de festinhas de aniversário de filhos de parentes meus, então juntei as fotos da exposição e peguei o primeiro ônibus em direção ao Jardim Botânico, ” Bom, ela quer ver natureza, vou mostrar natureza”.

“As fotos estão ok, vamos gravar um programa na Ilha de Marajó, vc poderia passar um mês lá fotografando para a gente? Eu te pago…” “Sim, quando viajo?”

Gelei. Eu havia dito sim para um trabalho que nunca tinha feito antes, em um local que não conhecia, com gente que nunca tinha me visto e para a maior empresa de telecomunicações da América Latina, e para piorar, com um equipamento que nunca tinha utilizado: uma nada saudosa câmera Nikon D1, a primeira digital da marca, ainda tive a cara de pau de perguntar se ela tinha o manual de instruções!!! Não satisfeito, ainda pedi que me emprestasse o equipamento (com o manual) durante uma semana para que o testasse!!! Eta, fotógrafo porreta!!

Fiquei em pânico daquele dia até a data de embarque e permaneci assim durante os 30 dias na ilha. Dividia o quarto com um produtor do programa, Fabio Távora, a quem vivia mostrando as fotos e perguntando: “Isso está legal? Você acha que vão gostar?” e ele: “Calma, Renato, relaxa, tá bonito, você tem foto de absolutamente tudo e de todos!”

Voltei com 30.000 fotos editadas, zilhões de ZIP discs da Iomega de back-up (que guardo até hoje, nunca mais serão lidos) e uma foto minha na primeira página do “O GLOBO” que recebi ainda em Marajó. Não acreditava naquilo…e ainda recebi por algo que faria de graça! (Andréa, esqueça essa frase)

O programa era o “No Limite 3″, o diretor gostou do resultado e me chamou para fotografar um novo tipo de programa, um reality-show chamado “Big Brother Brasil”. Mais três meses de pânico dentro de um corredor escuro e dessa vez com as fotos sendo enviadas quase que instantâneamente. Veio o BBB 2, 3, 4, 5 e desde 2001 eu mantenho o pânico fotografando todos os programas da emissora, alguns com exclusividade como “Mad Maria”, “Hoje é dia de Maria 2″ e “A Pedra do Reino”, outros dividindo o trabalho com os 4 fotógrafos da empresa: João Miguel Júnior, Marcio de Souza, Gianne Carvalho (RJ) e José Paulo Cardeal (SP), sem contar os agregados que, de vez em quando, nos ajudam: Kiko Cabral, Leo Lemos e Willian Andrade, que mais do que quebrar um galho, dizimam florestas. Há também aqueles que insistem em não escutar os pais e se rendem ao fascínio de produzir imagens, nossos estagiários: Fabrício Motta e Rafael França (esse já virou profisssional, mas uma vez estagiário, sempre estagiário, 01 pede para sair!!).

Não posso deixar de mencionar um fotógrafo que sabe usar como ninguém um equipamento vital na minha profissão, o cérebro. Além de fotografar com extremo bom gosto, me deu mais um daqueles conselhos que se carregam por toda a vida: Grandeza sempre! Sérgio Zallis, obrigado por nos ajudar a colocar a casa em ordem, foram 6 meses muito bons!

Juntos, nós formamos o time de fotografia da CGCOM, a Central Globo de Comunicação, que junto com uma legião de assessoras de imprensa abnegadas e lindas, ajuda a espalhar textos e fotos de tudo o que é produzido em uma das maiores redes de televisão do mundo para todos os jornais, revistas e sites do Brasil e do exterior. É um trabalho insano, que cobra um preço caro, mas adorável, jamais poderia imaginar que teria tanta sorte de participar de um time tão bom e coeso. Do alto de Gokyo Peak, a 5.700 m de altura, não conseguiria enxergar tão longe!

Logo que comecei a fotografar, fiz questão de entrar em contato com outros fotógrafos para extrair o máximo das dicas que pudesse obter, sugestões para que eu evitasse erros ingênuos e que me ajudassem no desenvolvimento da minha carreira. Encontrei inúmeras portas fechadas e profissionais que pensavam que sozinhos cresceriam mais rapidamente.

Eu entendo parte desse raciocínio, mas aprendi que sozinho, não se chega muito longe…

Meu intuito ao montar esse blog é um pouco ousado: mais do que escrever sobre a paixão que tenho pelas imagens, quero que ele seja um ponto de encontro, um local para troca de experiências. Ainda tenho muito o que aprender para poder me considerar um bom fotógrafo, mas, sem falsa modéstia, sei que já passei por situações que podem ajudar alguém sem as facilidades (e dificuldades) dos grandes centros urbanos, ou que esteja passando pelas mesmas dúvidas que eu senti há tempos atrás.

Caso deseje ver minhas imagens em vez de ler o que eu escrevo, por favor clique aqui.  Torço para que as fotos sirvam de inspiração, foram feitas com paixão.

Seja bem-vindo e se chegou até aqui, fica a promessa de que não serei tão prolixo assim, é que acabei me empolgando…rsrsr

Abraços e boa sorte

Renato Rocha Miranda

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