Category A primeira vez aqui?

E Deus disse: “Faça-se a luz!” 183

Eu sempre suspeitei que Ele gostava de fotografia…

e agradeço diariamente por isso!

Em 1989 eu me formava no Colégio Santo Agostinho, no Leblon (RJ). Diante de uma folha de papel que tentava determinar o meu destino, eu marquei um “X” em um quadradinho onde, ao lado, se lia: Engenharia.

“É uma profissão que te garante sucesso em muitas áreas”, “aproveite que seu tio tem uma construtora”, “você tem que pensar em ganhar dinheiro e ter uma vida tranqüila”. Sinceramente eu nunca tive dúvidas que meu futuro não estava dentro dos barracões de obra,  mas argumentos como aqueles eram sedutores para um jovem de 18 anos.

Na PUC aprendi derivadas, integrais duplas e triplas, equações diferencias, muita física e matemática. No trabalho consultava tabelas e ligava diariamente para todas as empresas que auxiliam na construção de um pequeno prédio: topografia, cálculos, ferro, forma, concreto e por aí vai…

Com o tempo vi que uma secretária e um macaco bem treinado fariam meu trabalho com perfeição, e com maiores dividendos para o meu tio, já que eu não era, nem de longe, um exemplo de motivação.

Uma década depois eu estava vários quilos acima do meu peso, rabugento e louco para mudar de vida. Só me lembrava de uma enciclopédia da TIME-LIFE que meu pai comprou para mim quando ainda era bem pequeno. Uma enciclpédia dividida de forma diferente, em vez de verbetes, assuntos variados: os animais, os insetos, os desertos, a Terra, as plantas, o universo, etc.

Li e reli aqueles livros dezenas de vezes, mas o que mais me impressionava eram as imagens de locais desconhecidos, gente estranha, animais selvagens e galáxias distantes. Imagens! Se todas as palavras fossem retiradas daquelas páginas meu encanto permaneceria igual. Ainda garoto nem desconfiava que existia a profissão de fotógrafo, mas sabia que produzir imagens como aquelas me daria grande satisfação.

Dentro do barracão de obra, com 28 anos, sentia que havia um abismo entre o que fazia e o que gostaria de fazer, mas como explicar para todo mundo que eu não desejava ser engenheiro?

“Eu imagino você atrás de uma mesa, gerenciando uma multi-nacional” disse-me uma vez minha mãe, no auge da minha confusão vocacional. “Seu filho seria o homem mais infeliz do mundo” foi uma tentativa de a fazer compreender.

“Renato, está vendo aquela cadeira ali?” apontou meu tio para atrás da mesa do escritório… “Passei 24 anos sentado nela”…” Meu Deus! Meu tio é um paraplégico!” pensei. Sabia que ele jamais entenderia, tinha que acertar no ponto de maior dor: “Sabe essa empresa que você tanto lutou para manter de pé? Eu vou falir com ela em um ano, não tenho o mesmo tesão que você”. Ele compreendeu rapidamente.

Visitando meu avô Arnaldo, corretor de imóveis e responsável pelo lançamento e vendas de um shopping na Barra da Tijuca, vi uma das primeiras lojas abertas para as ruas internas, a Visual Arts, uma escola de fotografia. Eu carregava comigo duas ampliações que acabara de fazer em um laboratório próximo. A escola estava em obras e a secretária (Lia, uma figuraça) me viu com o envelope e perguntou: “não se interessa em fazer cursos de fotografia?”. Minha mulher me acompanhava e comentou que seria uma boa terapia, que eu precisava de um descanso, de um tempo para mim. Balbuciei um sim e ela me mostrou o interior da escola, conversei com um dos donos (André, outra figura!) que me convidou a voltar dali há 2 semanas quando a escola estaria pronta. Todos sorriam estranhamente, sempre que eu comentava que queria ser fotógrafo, as pessoas me olhavam como se eu tivesse 3 braços.

Voltei, me matriculei e os sorrisos estranhos continuavam, ninguém questionava a minha opção de mudança, não encontrava entre os alunos nenhum revoltado por não estar fazendo o que gostava, ninguém obrigado pela famíla a seguir a profissão de fotógrafo, nenhum filho que desejava ser médico e o pai o desmotivava, dizendo que já tinha comprado uma Nikon F5, um flash, e 3 objetivas, todas f/2.8. Era pura paixão!

Eu sei que é possível aprender a fotografar sozinho, com livros e na base de tentativa e erro, mas a vantagem de se matricular em um curso é que a empolgação é contagiante.

O que era para ser uma terapia virou uma motivação, fiz 5 cursos seguidos, no último deles, Fotografia de Natureza, conheci um professor que seria um exemplo de fotógrafo, além de se tornar um grande amigo, Fábio Elias.

Ele estava terminando de montar uma empresa chamada Imagens & Aventuras,  cujo objetivo era ensinar fotografia em viagens a locais exóticos pelo mundo. O primeiro roteiro já estava traçado: India e Nepal, com direito a um trekking de 15 dias até Gokyo Peak, uma montanha nepalesa (5.700m) onde se tem um ótimo ponto de observação do Everest. Pronto! não havia como voltar atrás, vendi meu carro, aproveitei o câmbio favorável e mergulhei nas páginas da minha enciclopédia da infância: As Montanhas.

Um mês antes da viagem, minhas 2 câmeras quebraram, só restou uma velha Nikon FM10, sem objetiva, tive que comprar uma 50 mm f/1.4 lá no Nepal, que carrego comigo até hoje, um amuleto de 250 dólares e ótica impecável.

Se eu precisava de um motivo para trocar de profissão, encontrei vários na viagem. Fábio sabia que eu queria me tornar um profissional e me dava conselhos e me cobrava como um. Eu escutava e fotografa como um louco. Passei dias diminuindo a minha angústia conversando com uma amiga da viagem, Carla Durante. Conversávamos sobre como seria minha vida depois daquela viagem. Hoje, gostaria de encontrá-la para tomarmos um café e darmos boas risadas…Viver é bom, poder registrar isso é melhor ainda!

Depois que voltamos, a escola organizou uma exposição com as fotos e já não trabalhava mais como engenheiro, eu era um fotógrafo! Como não havia feito nada antes da viagem, foi difícil para o “fotógrafo” empolgado arrumar trabalho, passei um ano sem  conseguir ser pago para dar um clique sequer, minha mulher acertava as contas (tentava) dando aulas de inglês de 6 da manhã até às 8 da noite, até que, no meio de uma tarde nublada o telefone tocou. Era uma gerente da Central Globo de Comunicação. Eu estava em casa, já pensando que o ambiente da obra não era tão ruim assim, quando ela me disse que a Rede Globo estava precisando de um fotógrafo que gostasse de fotografar no meio da natureza, que ela lembrava do meu nome de uma exposição e que gostaria de conversar comigo. “Traga seu portfólio”. Eu sabia que ela não iria gostar de ver fotos de festinhas de aniversário de filhos de parentes meus, então juntei as fotos da exposição e peguei o primeiro ônibus em direção ao Jardim Botânico, ” Bom, ela quer ver natureza, vou mostrar natureza”.

“As fotos estão ok, vamos gravar um programa na Ilha de Marajó, vc poderia passar um mês lá fotografando para a gente? Eu te pago…” “Sim, quando viajo?”

Gelei. Eu havia dito sim para um trabalho que nunca tinha feito antes, em um local que não conhecia, com gente que nunca tinha me visto e para a maior empresa de telecomunicações da América Latina, e para piorar, com um equipamento que nunca tinha utilizado: uma nada saudosa câmera Nikon D1, a primeira digital da marca, ainda tive a cara de pau de perguntar se ela tinha o manual de instruções!!! Não satisfeito, ainda pedi que me emprestasse o equipamento (com o manual) durante uma semana para que o testasse!!! Eta, fotógrafo porreta!!

Fiquei em pânico daquele dia até a data de embarque e permaneci assim durante os 30 dias na ilha. Dividia o quarto com um produtor do programa, Fabio Távora, a quem vivia mostrando as fotos e perguntando: “Isso está legal? Você acha que vão gostar?” e ele: “Calma, Renato, relaxa, tá bonito, você tem foto de absolutamente tudo e de todos!”

Voltei com 30.000 fotos editadas, zilhões de ZIP discs da Iomega de back-up (que guardo até hoje, nunca mais serão lidos) e uma foto minha na primeira página do “O GLOBO” que recebi ainda em Marajó. Não acreditava naquilo…e ainda recebi por algo que faria de graça! (Andréa, esqueça essa frase)

O programa era o “No Limite 3″, o diretor gostou do resultado e me chamou para fotografar um novo tipo de programa, um reality-show chamado “Big Brother Brasil”. Mais três meses de pânico dentro de um corredor escuro e dessa vez com as fotos sendo enviadas quase que instantâneamente. Veio o BBB 2, 3, 4, 5 e desde 2001 eu mantenho o pânico fotografando todos os programas da emissora, alguns com exclusividade como “Mad Maria”, “Hoje é dia de Maria 2″ e “A Pedra do Reino”, outros dividindo o trabalho com os 4 fotógrafos da empresa: João Miguel Júnior, Marcio de Souza, Gianne Carvalho (RJ) e José Paulo Cardeal (SP), sem contar os agregados que, de vez em quando, nos ajudam: Kiko Cabral, Leo Lemos e Willian Andrade, que mais do que quebrar um galho, dizimam florestas. Há também aqueles que insistem em não escutar os pais e se rendem ao fascínio de produzir imagens, nossos estagiários: Fabrício Motta e Rafael França (esse já virou profisssional, mas uma vez estagiário, sempre estagiário, 01 pede para sair!!).

Não posso deixar de mencionar um fotógrafo que sabe usar como ninguém um equipamento vital na minha profissão, o cérebro. Além de fotografar com extremo bom gosto, me deu mais um daqueles conselhos que se carregam por toda a vida: Grandeza sempre! Sérgio Zallis, obrigado por nos ajudar a colocar a casa em ordem, foram 6 meses muito bons!

Juntos, nós formamos o time de fotografia da CGCOM, a Central Globo de Comunicação, que junto com uma legião de assessoras de imprensa abnegadas e lindas, ajuda a espalhar textos e fotos de tudo o que é produzido em uma das maiores redes de televisão do mundo para todos os jornais, revistas e sites do Brasil e do exterior. É um trabalho insano, que cobra um preço caro, mas adorável, jamais poderia imaginar que teria tanta sorte de participar de um time tão bom e coeso. Do alto de Gokyo Peak, a 5.700 m de altura, não conseguiria enxergar tão longe!

Logo que comecei a fotografar, fiz questão de entrar em contato com outros fotógrafos para extrair o máximo das dicas que pudesse obter, sugestões para que eu evitasse erros ingênuos e que me ajudassem no desenvolvimento da minha carreira. Encontrei inúmeras portas fechadas e profissionais que pensavam que sozinhos cresceriam mais rapidamente.

Eu entendo parte desse raciocínio, mas aprendi que sozinho, não se chega muito longe…

Meu intuito ao montar esse blog é um pouco ousado: mais do que escrever sobre a paixão que tenho pelas imagens, quero que ele seja um ponto de encontro, um local para troca de experiências. Ainda tenho muito o que aprender para poder me considerar um bom fotógrafo, mas, sem falsa modéstia, sei que já passei por situações que podem ajudar alguém sem as facilidades (e dificuldades) dos grandes centros urbanos, ou que esteja passando pelas mesmas dúvidas que eu senti há tempos atrás.

Caso deseje ver minhas imagens em vez de ler o que eu escrevo, por favor clique aqui.  Torço para que as fotos sirvam de inspiração, foram feitas com paixão.

Seja bem-vindo e se chegou até aqui, fica a promessa de que não serei tão prolixo assim, é que acabei me empolgando…rsrsr

Abraços e boa sorte

Renato Rocha Miranda

I LOVE MY JOB utiliza WordPress com FREEmium Theme.
As modificações foram feitas por Carlos Alberto Ferreira