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Selvagens cães de guerra. 8

Murilo abre2

Quinta feira, 8 da noite e eu tinha acabado com todas as minhas pautas do dia. Subi para descarregar o material e encontrei o computador sem ninguém…era um bom sinal, dali a meia hora já estaria em casa.

Nosso editor de fotografia, Paulo Marcos, se vira para mim e manda:

“Renato, acho que tem uma foto aqui que você vai adorar fazer, é um retrato do Murilo Benício para a capa do caderno de TV do Jornal Extra.”

“Que bom! Para que dia ela foi marcada?” respondi na inocência.

“Agora! Ele chega em 15 minutos para a noturna…”

Adeus cama quentinha e horas de sono!!

As gravações aconteciam no novo prédio, ainda em obras, do Centro de Pós-Produção do Projac. Enquanto subia as escadas até o set de gravação, vi que um refletor HMI de 20.000 watts despejava toneladas de potência pelas janelas laterais. Normalmente, quando se encontra um bicho grande desses, ele ilumina o fundo de suas fotos.

HMI

Eu alcancei o segundo andar preocupado: salas vazias, cobertas por folhas de fórmica cor de creme, nenhum móvel, paredes nuas e um set de gravação que simulava um hospital…perfeito para eles, terrível para mim. Corri para o corredor e minha observação do parágrafo anterior se confirmou: o refletor produzia um padrão interessante de listras nas paredes e no teto e as fórmicas brancas rebatiam suavemente a luz.

Se não tem solução, solucionado está: a foto seria ali, qualquer luz adicional seria um trabalho fácil para os cachorros eletrônicos que eu trazia no colete: dois SB-800. E eu estava disposto a soltá-los naquele corredor.

Meu amigo fotógrafo Isac Luz já estava fotografando as cenas, usei-o como “stand in” para as fotos, tentando encontrar a melhor posição no corredor.

Isac Luz, posição.

Isac Luz, contra luz.O grafismo das listras podia atrapalhar a visualização da foto, resolvi, então, usar uma luz de separação, para “soltar” o ator do fundo e atrair a atenção para seu rosto. Posicionei um tripé Manfrotto Nano 01 logo atrás da posição correta e calculei a exposição usando um dos SBs: 1/32 da carga total. As baterias agradeciam…

Já tinha quase tudo pronto: uma luz potente o suficiente para me permitir ajustar a sensibilidade da câmera para ISO 400 iluminando o fundo, produzindo um padrão de listras tanto no fundo como no teto e na lateral do corpo do ator. Essa mesma luz era rebatida e produzia uma luz suave que iria iluminar a lateral esquerda do rosto. Outra luz vinha de trás, do SB no tripé, dando um recorte na altura da cabeça do ator. Faltava uma outra luz, “abrindo” as sombras do lado direito do rosto.

Eu não queria que essa luz se espalhasse por todo o canto, contaminando o padrão listrado, usei, então, uma folha de cine-foil para estrangular o facho de luz do flash, concentrando toda a potência apenas no rosto do Murilo.

Com o Isac na mesma posição e a ajuda de um figurante como tripé humano segurando o segundo SB, fiz umas fotos de teste:

Isac, 2 flashes

Perfeito!

O White Balance da câmera está ajustado para 3.200 K, a temperatura de cor padrão dentro dos estúdios, por isso o tom azulado na foto e não era esse o enquadramento final, isso é só um teste.

Um corte mais fechado iria eliminar o reflexo do flash nas laterais e um posicionamento mais baixo daria à foto a dramaticidade que eu procurava. Se eu tenho listras, que sejam mostradas as listras, não há necessidade de mostrar piso, cabos e toda a perna do ator, o padrão que me chamou atenção está lá em cima.

Um detalhe: se eu usasse uma velocidade de obturador muito alta, perderia o padrão tanto no teto como no corpo do fotografado, como mostra a foto acima. A melhor velocidade que eu encontrei foi de 1/80s. Segura o suficiente para segurar a D200 na mão sem tremer.

Era  a vez, agora, do Isac servir de tripé humano enquanto eu fotografava o Murilo, como se pode ver na foto abaixo..rsrsr:

Isac e Murilo

Tudo ajustado, testado, só me restava aproveitar a folga de 15 minutos antes de ele voltar à gravação e clicar de todas as formas possíveis, respeitando o espaço para o título do suplemento na parte de cima das fotos e dos textos na lateral.

Quinta feira, meia noite e eu tinha terminado todas as minhas pautas…graças ao comportamento exemplar de dois cães eletrônicos que topam qualquer parada!!

Boa sorte!

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8 comentários para esse post

  1. Geraldo Garcia disse:

    Foto e texto excelentes, Renatão!
    É disso que precisamos no Brasil, profissionais competentes e de mente aberta, dispostos a compartilhar e ensinar.

    Parabéns e grande abraço.

    [Responda]

  2. nbalike disse:

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    [Responda]

  3. Anonymous disse:

    Grande adestrador canino.
    Você domina seus cachorrinhos como ninguém.
    Parabéns pela foto.
    Claudia Novaes

    [Responda]

  4. Paulo Cottê disse:

    Muita dramaticidade!!!!! seria otimo poder carregar um hmi por ai!!!! haha estariamos feitos.
    Tu fez um snoot com um sb 800.hehe, bacana!! Linda foto texto show`e um historia bacana de um mundo distante para mim (o projac) hehe. curti pacas!
    Perguntas:
    Pq vc nao trabalha com um fotometro de mao?
    Se vc usa equipo nikon e suas ampliaçoes nao sao grandes pelo que percebi. pq vc usa asas tao baixas? a nikon nao granula quase nada em 800 e 1600

    MUITO DRAMAAAAAAA!!
    boa luz sempre,Renato
    Cottê.

    [Responda]

  5. Juca Filho /jucafii disse:

    Genio, Renato, criativo pra c. num lugar onde a maioria das pessoas iria cais na burocracia. Se vc trabalhasse na minha área (texto) com essa criatividade não escaparia
    nunca de estar na minha equipe. É um prazer ler seus posts sobre luz contínua, algo que nunca me interessou como fotógrafo viajandão totalmente luz natural e que agora me interessa muito, principalmente porque seu jeito de expor o assunto é totalmente compreensível e bacana. Agora eu já vejo fotos dos “artistas” por aí e, quando acho legais, vou direto ver se é sua… Parabéns, parceiro!

    [Responda]

  6. Renato Rocha Miranda disse:

    Obrigado a todos que comentaram!! Isso dá gás!
    Paulo:
    O sistema CLS da Nikon não permite o uso de um fotômetro de mão. Como o sistema se vale de um pulso de luz para disparar o conjunto de flashes externos, o fotômetro acaba lendo esse pulso e dá a fotometragem errada (na verdade, o fotômetro não consegue ler nada). Isso não significa que o processo deve ser feito na “tentativa e erro”, o próprio SB800 é capaz de calcular a correta exposição, sem falhas ou gambiarras.
    Eu escrevi um artigo comentando como se fazer isso, clica aqui:
    http://renatorochamiranda.blogspot.com/2008/05/sb-800-h-uma-calculadora-aqui-dentro.html

    Essa foto deve ter sido a primeira a ser feita naquelas condições em ASA 400, 99% do meu trabalho é feito em ASA 800 para cima (daí o meu apelido do Flickr ser 800asas), embora eu ache que gera pouco ruído, gosto da textura dele, até adiciono um pouco no PS na pós produção.
    Forte abraço e obrigado pelo empolgação.
    Boa sorte sempre!

    RRM

    [Responda]

  7. Fabiana Guedes disse:

    Renato, que máximo esse seu Blog! Fiquei encantada! Show de bolaaaaa!

    [Responda]

  8. Stefano Aguiar disse:

    Caramba!
    Eu saio de folga um pouquinho e você não pára, Renato!
    Dez para a foto e para a solução!

    [Responda]

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